Cacau mais caro

Bastos, da AIPC: urgência para mudanças.

Um pouco mais de um mês após a indústria processadora de cacau anunciar adesão ao plano de sustentabilidade Cocoa Action, que contempla ações de cunho socioambiental, um inquietante relatório do Ministério Público do Trabalho (MPT) provocou impacto nas empresas. “E gerou um senso de urgência para mudanças”, sublinha Eduardo Bastos, diretor executivo da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC). O MPT divulgou um relatório, elaborado em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), no qual reporta autuações de trabalho infantil análogo à escravidão em fazendas de cacau do Brasil nos últimos anos. “O relatório chocou muita gente da cadeia e, para quem está no dia a dia, não é essa a dimensão do trabalho infantil, mas, infelizmente, não temos números para contrapor”, grifa Bastos, acrescentando que, de qualquer forma, a indústria tem consciência da existência do problema.

O MPT apontou a desigualdade e a distância entre o topo e a base da cadeia como um dos principais fatores da vulnerabilidade social nos polos de cacauicultura. Segundo o órgão, os agricultores consultados reclamam de preços impostos de cima para baixo. Já as indústrias processadoras de cacau afirmam que os preços no Brasil estão entre os mais elevados do mundo. “Pagamos hoje no Brasil o valor negociado na Bolsa de Nova York, mais US$ 280 por tonelada. E já chegamos a pagar o valor em bolsa mais US$ 900”, exemplifica Bastos.
O preço na bolsa, porém, reflete basicamente à oferta do oeste da África, que produz dois terços da oferta mundial. Para o executivo, o problema no Brasil não é preço, mas produtividade. Na Bahia, o rendimento está em torno de 300 quilos por hectare, enquanto na Costa do Marfim, maior produtor mundial, chega a 500 quilos. “Além de tornar a renda por hectare baixa, faz a indústria pagar no Brasil o cacau mais caro e o produtor a receber um dos menores valores do mundo”, observa.

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