Sincronia na cadeia

Pesquisa indica que o setor de cacau precisa ampliar a produtividade

Estatísticas precisas, integração entre agricultores e indústrias e mais investimentos em manejo e tecnologias. Essa é a receita para a cadeia produtiva do cacau do país recuperar o protagonismo do passado. Curta e simples, porém de difícil execução, ela é detalhada no estudo Agronegócio do Cacau no Brasil, recém-concluído pelo Departamento do Agronegócio (Deagro) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Crescente entre os anos1960 e 1980, quando alcançou 619 quilos por hectare, a produtividade média das lavouras de cacau desabou. Com isso, a participação da produção brasileira no mercado global caiu de entre 12% e 19%, em média naquele período, para 10% nos anos 1990 e para apenas 5% nas últimas duas décadas, reporta a pesquisa.

Com apoio da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) e da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), o levantamento da Fiesp lembra que a discussão está diretamente relacionada à devastação provocada pela doença conhecida como vassoura-de-bruxa nas plantações da Bahia, que liderava a produção nacional no fim dos anos 1980. “A questão fitossanitária teve forte impacto no segmento e os preços internacionais, que registraram salto nos anos 1970, se estabilizaram em baixos patamares, aprofundando o desestímulo”, analisa Antonio Carlos Costa, superintendente do Deagro.

Para a baixa das cotações, colaborou o avanço da produção nos países do oeste da África que atualmente lideram o mercado global. Diante da combinação vassoura-de-bruxa e preços, o Brasil não conseguiu manter uma produção atrativa e se tornou, inclusive, importador da amêndoa.

O cacau brasileiro, no entanto, conta com mais de 93 mil produtores, segundo o IBGE, com valor bruto da produção (VBP) de quase R$ 4 bilhões em 2020, indica o Ministério da Agricultura. E o avanço da cultura no Pará nos últimos anos alimenta expectativas inclusive de ganhos de eficiência na Bahia. Não se questiona o avanço naquele Estado do Norte, mas há divergências entre as estatísticas oficiais, notadamente as do governo estadual e os números das indústrias processadores sobre a produção paraense. De maneira geral, porém, os elos da cadeia tentam se fortalecer, e vários programas mantidos por empresas auxiliam produtores nos principais polos, com assistência técnica e orientação sobre práticas sustentáveis.

No Brasil, é forte a demanda por pó de cacau, ingrediente de biscoitos e bebidas, que puxa as importações de derivados da amêndoa, sendo maior a oferta doméstica de manteiga e líquor, matérias-primas do chocolate. Nesse contexto, as associadas da AIPC respondem pelo recebimento de 95% do cacau produzido no país e têm capacidade instalada para processar 275 mil toneladas por ano. O VBP industrial supera R$ 2 bilhões anuais. Evidentemente, é de particular interesse da indústria instalada no país ampliar a oferta nacional, ao mesmo tempo em que as tendências de consumo de chocolates e outros produtos de cacau são acompanhadas de perto, no Brasil e no exterior. No mercado interno, o principal motor do consumo, ainda baixo (3,5 quilos por habitante ao ano), é a renda. Mas nesta frente o horizonte é turvo, embora existam boas oportunidades para as exportações, indica o estudo da Fiesp.

“Em parceria com a Apex-Brasil, temos feito esforços para conquistar mais mercados, levando-se em conta que já chegamos a 145 países. A Turquia, nossa concorrente, tem acordos com países da Ásia, por exemplo. Precisamos avançar nas negociações”, acalenta Ubiracy Fonseca, vice-presidente do setor de chocolates da Abicab. As exportações representaram 4% da produção da área de chocolates em 2020 contra 2% das importações, repassa ele.

 

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